Guarde isso: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo. C.F.A

sábado, 2 de outubro de 2010

Leio e conto história

Com meus livros é assim, tem dias que eu os leio e tem dias que eu conto a história para mim.

Nos dias que eu conto, quando bem me dou conta, já estou na página cento e tarárá, nem percebo que o tempo se esvaiu em minutos.

Nos dias que leio, e apenas leio, também escuto os ruídos da rua, me encho, e tudo demora demora.

Nos dias que eu conto percebo vez em sempre as diferentes entonações da minha voz sussurrando, sei que sussurro abafado é o narrador, sussuro agudo é alguma personagem, e tem o sussurro agudo diferencial, que é para outro personagem - não sei denominar diferente se não "agudo diferencial", o que importa é saber seu significado, e só.

Nos dias que leio, preciso voltar a página e ler de novo, é chato chato. Falta saliva, dá sede, levanto e tomo água, lá se vai mais tempo e menos história.

E quando conto, não sou eu quem conta, embora conte, pois se fosse, eu cansaria, mas não canso. Na verdade pode sim ser eu. Mas como pode, se tanto parece que estou sentado ouvindo contarem? Eu conto e não conto, fácil fácil.

Meus livros são guardados em filas, com listras: li, contei, li, contei, li, contei. Depois volto para contar os que li e ler os que contei. Eles são meus, são meus. E não adianta um contado querer ser um lido, e vice-versa, o que não é não pode ser, e eu sei bem o que cada um é, são todos meus.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Quando aprendemos a aprender.

Aprendemos a falar; aprendemos a falar coisas desinteressantes
Aprendemos a andar; aprendemos a andar de bicicleta
Aprendemos a nadar; aprendemos a nadar em diversas modalidades
Nascemos sem saber; aprendemos a viver até a morte.

Quando aprendemos a aprender?
Longe de ser a última das minhas indagações, essa é a mais nova e mais esquisita. Cresci e ainda não saí da fase dos "porques". Voltando à pergunta: Quando nos damos conta de que é possível reproduzir o que está a nossa volta? Existe uma idade exata para começar a aprender o que quer que seja? Segundo estudos, as primeiras palavras de um bebê (mama, papa e etc) não significam o que deduzimos, ele não está pondo em preferência o amor à mãe ou pai, e sim descobrindo como utilizar suas cordas vocais emitindo sons diferentes, a coincidência de fonemas se dá pelo fato de palavas com M, P, B, G e T serem mais fáceis de pronunciar. Sabemos que é impossível lembrar do nosso primeiro passo, primeira palavra ou primeiro surto de razão, pois no início da vida não sabemos nem como guardar momentos na memória. Então o que inicia a nossa capacidade de aprender, de ver como um adulto anda e tentar fazer igual, de ouvir sons e tentar reproduzí-los, quando nos estendemos por gente?

A resposta é: aprendemos sempre.

Desde a formação fetal. Nos nossos primeiros meses observamos aos poucos tudo o que está à nossa volta, e o tempo se encarrega de amadurecer e aprimorar a nossa inteligência perceptiva. Até que chegamos a uma idade limite para absorvermos, quase por osmose, tudo que é instintivo, a partir daí aprendemos apenas coisas do mundo: convivência, educação, relacionamentos, desejos, preferências. Mas, por incrível que pareça, aprender com os próprios erros é a nossa espécie de curso profissionalizante mais eficaz, errar para não repetir, desmentir a tese de que o sábio é o que aprende com os erros alheios, e categorizar a de que o próprio erro é o que melhor ensina. Atingimos um patamar de aprendizagem ao qual apenas observar já não adianta mais.

Posto à mesa mais uma complexidade humana, quando enfim nos damos conta que aprendemos a aprender, descobrimos que para isso os piores caminhos devem ser tomados, e que um desses "piores caminhos" é tão interessante que não queremos que ele seja apenas uma etapa da nossa lição de casa, mas infelizmente é só o que é, assim como o tempo, não podemos voltar, quanto mais dizer: terminei a minha lição, já sei como não errar no mesmo ponto, vou voltar a página e corrigir o erros. Enfim percebo que aprender a aprender não é tão interessante assim depois de descobrir quando acontece, porque é nesse momento que a realidade alerta: tudo é mais difícil do que a escola, livros e filmes ensinam. Triste vida essa nossa.


sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Música para ouvir enquanto organiza os livros


Achei você no meu jardim
Entristecido
Coração partido
Bichinho arredio

Peguei você pra mim
Como a um bandido
Cheio de vícios
E fiz assim, fiz assim

Reguei com tanta paciência
Podei as dores, as mágoas, doenças
Que nem as folhas secas vão embora
Eu trabalhei

Fiz tudo, todo meu destino
Eu dividi, ensinei de pouquinho
Gostar de si, ter esperança e persistência
Sempre

A minha herança pra você
É uma flor com um sino, uma canção
Um sonho, nem uma arma ou uma pedra
Eu deixarei

A minha herança pra você
É o amor capaz de fazê-lo tranqüilo
Pleno, reconhecendo o mundo
O que há em si

E hoje nos lembramos
Sem nenhuma tristeza
Dos foras que a vida nos deu
Ela com certeza estava juntando
Você e eu

Achei você no meu jardim

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Um pouco de Merthiolate para mim

Numa das vezes que tropecei nos calcanhares, naquela não tão distante infância, esfolei os joelhos nos grãos grosseiros da areia. Lembro da dor, do sangue, do impacto, da preocupação da minha avó, suas reclamações que mais pareciam carícias, a água da torneira batendo no ferimento, o sabão desinfetando, o merthiolate se aproximando - com a trilha de "Tubarão" como fundo musical- vermelho como nunca, fazendo arder.

- Ai, tá doendo. Eu dizia.

E logo aparecia uma daquelas "vó-explicações", naquele doce "vó-jeito" de ser, para justificar:

- Se dói, é porquê está sarando.

Foram precisos alguns anos para eu perceber que é assim que a vida funciona. Genial, vozinha! Genial.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Eu sou da Kid List

Nunca pensei que isso pudesse ser tão incompreendido, rejeitado, visto com maus olhos, mas é, isso é o fim, segundo opiniões de pessoas próximas. "Como pode alguém nos dias de hoje ser seguidor do Kid Abelha? Não entendo."
Já presenciei reações distintas ao extremo, desde "eca, Kid Abelha" até "legal, Kid Abelha", mas nunca um "que máximo, Kid Abelha". Por mais que digam que a Paula Toller é sem sal, as letras mal elaboradas, a banda antiga e atualmente desunida, não me importo, esse gosto é algo que alimento desde os meus oito anos, talvez seja isso, aprendi a gostar quando o discernimento ainda me era falho, e ainda assim não me importo. Tenho uma relação de amor com a banda, as músicas de alguma forma mexem comigo, fazem parte, se integram. Nada melhor do que cantar "Maio" no fim do mês de maio, ou "Amanhã é 23" sempre que for dia 22. E para quem odeia a banda, por favor faça silêncio, quero ouvir o George Israel tocar.
"Eu quero você como eu quero,não importa se na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê e , embora seja evidente a nossa mudança de comportamento, nunca devemos dizer que o amor se transformou em bom-dia, então vamos lá, vamos fazer amor de madrugada, descobrir qual o segredo da felicidade, ter um sonho e fazer dele o nosso vício, tudo bem, eu sei que nada sei sobre sonhos, mas eu tou tentando saber, e quando eu descobrir te conto, sussurando no ouvido, ignorando tudo que os outros possam dizer, porque eu sou da Kid List."

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Eu sei onde vivem os monstros.

Não sei bem o motivo, mas esse cantarolar do filme me deixa com um nó na garganta, talvez porque eu lembre dos meus monstros e ainda assim os ame. Eles, resumidamente, fazem parte de mim.

"Onde Vivem os Monstros"

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Rapidinhas #5

Naquela casa tinha um muro de quase três metros de altura, quatro grades, uma em cada porta, dois cadeados em cada grade, cerca elétrica em volta, um alarme e tanto. Eu era feliz. Meu momento preferido era o banho de sol na área de serviço, onde tinha uma daquelas telhas de acrílico transparente; a luz da liberdade.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Música para se acordar feliz.

Todas as manhãs o despertador do meu micro-system me acorda com esse som, e antes mesmo de abrir os olhos, abro um sorriso.

"Recomendo todas as versões musicais da Julia Nunes, ela é encantadora, a segunda que mais gosto é L-O-V-E"

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Aliás, era 7 de setembro.

Naquele dia cometi um crime gravíssimo, e fi-lo de maneira consciente, falei "cá" comigo:
- No meio de tanta gente, quem há de se importar?
Ledo engano, cara consciência, sempre existe um anjo redentor que vai te apontar com o dedo e dizer:
- Oh! Vejam só que crime abominável, você esqueceu de por a vírgula.
Ainda bem que ele, o anjo, vestido de "ela", a garota, não percebeu que também faltava, naquela frase do cartaz, uma crase gritando por prestígio.
Admito, em momento algum a falta da vírgula me chamou a atenção; esqueci totalmente desse importantíssimo detalhe, mas da crase eu lembrei, e quando me voluntariei a corrigir alguma força maior me fez subestimar o grau de letramento e atenção de todos os presentes, então deixei para lá, uma crase apenas, quem se importa?
Eis que o crime é registrado, por essa eu não esperava. Bem longe dos cartazes e da multidão, uma fotografia me entrega totalmente, alguém tão crítico em relação às normas cultas da língua quanto eu, vê a imagem daquela aberração da natureza em forma de cartolina e tinta azul.
- Faltou uma vírgula aqui - diz em tom de correção - depois de dorgas.

Ainda bem que "ela" não notou que também faltava uma crase.

Isso me roía por dentro, mais cedo ou mais tarde alguém veria aquela foto e seria meu fim, um erro apenas não é algo condenável, mas dois, e na mesma frase, é questão de honra.
- Por que, meu Deus, por que fiz isso? Logo eu que não deixo um deslize gramatical alheio passar em branco, caindo nessa armadilha de "ninguém está olhando, vou deixar assim mesmo".

Ainda bem que "ela" não notou que também faltava uma crase.

Chego em casa, cabisbaixo, um criminoso à solta, um impuro, aquele que esqueceu a vírgula (e também a crase, mas "ela" não percebeu), ponho um filme para rodar, vou aos poucos recordando todas as vezes que debati comigo mesmo sobre aquele gerundista, amórfico, errante do idioma, nunca o corrigi verbalmente, sempre por pensamento, eu e minha amiga consciência maldita conversávamos sobre a mais nova decadência humilhante da falta de sintonia entre homem e língua portuguesa, e agora aqui estou eu, preso nesta teia, com a enorme aranha (ela) se aproximando e balbuciando
- A víííír-gu-laaa, cadê a vííír-gu-laaa?
Acordo assustado, era apenas um sonho, ufa. Vou ao escritório, ligo o computador, enxugo o suor e entro no orkut, vejo nas atualizações a tal foto do tal cartaz, NÃO AS DORGAS MANOLO, ainda sem vírgula, logo abaixo o comentário "dela":
- Ah... você também esqueceu da crase.
Pronto, é o fim. Tragam aqui a minha cadeira elétrica, pode deixar que eu mesmo ligo na tomada.

Notas de rodapé
1- Frase correta: Não às dorgas, manolo!!!
2- Dorgas: drogas para cães.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Rapidinhas #4

Ela era uma boa madrasta, mas não sabia que sua enteada era alérgica a maçãs.
Morreu com a acusação de tentativa de homicídio na ficha criminal.

Rapidinhas #3

"Vou te amar até amanhã de manhã, por muitas manhãs."
E então de repente as manhãs passam a deixar de nascer.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

(Arnaldo Antunes)
Sugiro sem mais falácias uma equação de si mesmo



quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Cotidianamente

Todos os dias dou bom dia à minha rotina, desisti de tentar combatê-la para finalmente tirar algum proveito do que ela tem a me passar, e acreditem, hoje somos amigos íntimos e inseparáveis. Fazer de coisas triviais uma distração é algo relativamente difícil, mas delicioso quando acontece. Hoje não foi muito diferente, depois de passar pelo ritual "levanta, se arruma e se alimenta" sai em busca da fila nossa de cada dia na caixa econômica, desesperador eu diria, mas não digo, aprendi com o tempo que adaptação é questão de sobrevivência, ou no mínimo seleção natural, desde que não evolua para um comodismo premeditado.

Darwin escreveria: Aquele que se adapta a atividades repetitivas e ininterruptas priva o organismo de futuras degenerações psicológicas que afetam diretamente o funcionamento do sistema nervoso evitanto assim uma morte precoce.

Levo um livro, música, e um caderninho com o título "caderno para anotações de ideias que surgem em filas de banco", o tempo passa que eu nem percebo.



quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Rapidinhas #2

- Quando eu crescer, quero ser igual ao meu pai.
- Gordo e depressivo?
- Não. Criativo.
- Ah!
- ...
- ...
- Ei?!

domingo, 22 de agosto de 2010

Rapidinhas #1

Relacionamento FAIL:

- Amor
- Oi
- Você nunca diz que me ama
- Ué... eu demonstro nas minhas atitudes, isso não conta?

Onde Vivem os Monstros

"Como seria ter um lugar em que só aconteceria o que você quisesse que acontecesse?". Essa foi a sugestão dada pelo filme que escolhi aleatoriamente na locadora, seu enredo encarrega-se de responder tal pergunta no decorrer dos acontecimentos. Onde vivem os monstros entrou na minha lista de "filmes não-óbvios", aqueles que não indico a todo mundo, melhor, não indicarei a ninguém, quem se desprende das coisas evidentes vai querer vê-lo por si só, poderá achar o filme estranho, chato e sem nexo, ou não.

Fala das aventuras de Max, um menino solitário que cria o seu próprio mundo, com seus próprios monstros: inconstantes, temperamentais, tristes, vilões e mocinhos ao mesmo tempo. Um garoto incomum, notamos isso na sua história fantasiosa sobre os dois edifícios mordidos por vampiros, sua vontade em saber todos os segredos do mundo, ou seu intusiasmo em construir o forte perfeito, com uma cidade em volta, onde todos os monstros dormiriam juntos, apoiando uns aos outros, e por fim ele pede que tudo seja encarado de maneira realista.


Quem disse que não podemos criar o nosso próprio realismo, com fortes seguros, reis competentes, que nos entenda e consiga unir todos os nossos monstros numa só comunidade? Ninguém disse, justamente porque não podemos. As feras são mais fortes, e singulares, existe aquela quieta que espera ser ouvida, a que é leal, a amarga, a silenciosa, a que necessita de atenção e companhia, a impulsiva e mais outras, todas são um só ser, nós mesmos, que nunca se unirão.

E o nosso outro mundo, aquele que arquitetamos, onde tudo é perfeito e nos agrada, é bem mais triste que esse mundo de todo mundo. Lá estaremos sozinhos, ninguém é obrigado a participar dele, e por isso ninguém participa, é aí que percebemos o quanto precisamos da verdadeira realidade, e que nela existem outras pessoas arquitetas de seus mundos, abrindo mão da sua obra para simplesmente nos amar, ou nos ver comendo cereal no jantar e não dizer uma palavra se quer, por apenas gostar de ver o nosso rosto, afinal "somos só meninos vestidos de lobo que fingem ser reis".

(passei dias para conseguir postar esse comentário sobre o filme, mas eu precisava)